Cidade:
Lábrea, Amazonas — Um lugar onde a floresta sussurra segredos antigos e a névoa esconde mais do que árvores.
Histórico:
Post Scriptum Izanagui é o relicário virtual de um pretensioso escritor (e talvez amaldiçoado) que tropeça pelas sensações do terror, da melancolia e do absurdo. Inspirado por Lovecraft, Poe, Álvares de Azevedo e outros senhores loucos da palavra, este blog abriga contos, ideias sombrias, devaneios poéticos, análises literárias e surtos criativos registrados antes que escapam para o éter. Entre, leia, mas com cuidado: algumas palavras sussurram de volta.
Lábrea, Amazonas — Um lugar onde a floresta sussurra segredos antigos e a névoa esconde mais do que árvores.
Histórico:
Como Transformar Cenários em Monstros
Esqueça aquele papo de que o cenário é só um pano de fundo bonitinho. Em histórias de terror, o cenário é aquele parente estranho que aparece na ceia de Natal e você não sabe se ele vai contar uma piada ou arrancar sua pele. É um personagem com alma própria, ainda que a alma esteja apodrecendo em algum porão escuro e esquecido.
Você gosta de frases curtas? Objetividade? Verbo direto ao ponto?
Então talvez este texto não seja para você.
Aqui, vamos abrir um sarcófago literário e desenterrar três autores que jamais mandariam um "oi, sumido" — prefeririam algo como "há muito, no silêncio oblíquo das eras, minha alma exilada ansiava por tua etérea presença..."
Estamos falando de Álvares de Azevedo, Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft: os grandes mestres da linguagem rebuscada, essa arte obscura de escrever como se você estivesse morrendo, apaixonado, tendo uma visão cósmica e folheando um dicionário de 1850 — tudo ao mesmo tempo.
Onde o monstro não morre — ele só muda de endereço
Todo mundo adora um final feliz. Exceto o terror. O terror prefere finais... inquietos. Nada de explicações detalhadas, lições de moral ou o assassino sendo preso com trilha sonora triunfal. No terror bem feito, a história acaba com um sussurro, não com um ponto final.
Você já percebeu que, nos contos, nem sempre o que assusta é o monstro? Às vezes, é o parágrafo em branco. O espaço entre duas frases. Aquele momento em que o narrador não descreve o que viu… e você começa a imaginar o pior.
Esses são os espaços vazios — não os do Word, mas os do tipo que sussurra no seu ouvido quando você está sozinho na sala às três da manhã e ouve um cloc vindo da cozinha. (Spoiler: provavelmente foi o vento. Ou não.)
Nos contos, esses vazios são cuidadosamente plantados. São como armadilhas de silêncio. Não dizem nada, mas sugerem tudo. É o autor te entregando uma caixa preta com um bilhete que diz: “melhor não abrir”. E claro, você abre — porque o leitor é curioso e masoquista em igual medida.
Esses espaços não são descuidos. São arquiteturas do pavor. É onde a história respira fundo antes de te empurrar escada abaixo. São os momentos de pausa que te deixam se perguntando: isso foi só uma sombra? Sim. Mas ela te olhou de volta.
E o mais delicioso (ou sádico) é que o terror ali não vem de mostrar, mas de insinuar. O vazio é um convite para o seu cérebro fazer o trabalho sujo. E sejamos honestos: seu cérebro é ótimo nisso. Ele pega um ruído inocente e transforma em entidade ancestral faminta por almas e miojo.
Então, da próxima vez que você estiver lendo um conto e der de cara com um silêncio narrativo, um espaço em branco, um vago “mas algo parecia errado”... não subestime. Pode ser só estilo. Ou pode ser algo olhando pra você do outro lado da página.
Boa leitura. E boa sorte com o barulho na cozinha.
Numa dessas noites insones em que a realidade perde a cor e a internet vira um labirinto de promessas literárias, tropecei — felizmente, não em uma alma penada — no site Seleções Literárias. Um verdadeiro relicário para escribas como eu: apaixonados pela escrita, ligeiramente perturbados e com tendências a ver sombras onde há apenas cortinas mal fechadas.
Foi lá que avistei, cintilando como um farol no nevoeiro do submundo editorial, o concurso “Caronte”, promovido pela sempre provocadora Medusa Editorial. O tema? Uma releitura da travessia final — aquela que todos nós faremos um dia (mas com sorte, não tão cedo). A proposta é simples e deliciosamente macabra:
Certa noite, enquanto me perdia nos recantos mais obscuros da web, tropecei em uma proposta que, confesso, me arrepiou até os ossos. Um concurso de contos de terror, com a possibilidade de ter minha história imortalizada no nostálgico canal WebTV. Os anos 80 e 90 ainda vivem nas sombras do nosso imaginário, e nada mais perfeito para dar um toque de mistério e arrepios.
A descrição do concurso... bom, leia e me diga se você não sente uma leve sensação de desconforto:
"Aposto que você já ouviu alguma. Ficou surpreso? Eu também. Elas estariam no imaginário da população? Ou talvez, muito mais perto do que imaginamos? Às vezes penso que é um mistério... um bom suspense. E você, o que acha? Eu chego a crer que algumas histórias são reais, mas ao serem passadas de boca em boca, ganham uma camada de horrores adicionais. Quem conta um conto... aumenta o ponto."
E quando se fala em "aumentar o ponto", minha mente logo se perde em uma lenda urbana que já visitou os pesadelos de muita gente: A Mulher de Branco na Estrada. Uma história com mil versões, adaptada e distorcida por cada região, mas sempre com um toque de terror universal.
Agora, você me permite dar minha própria versão? Bem, segure-se, porque o que vem por aí é... inesperado.
Hoje, corajoso leitor, vou abrir as cortinas empoeiradas do meu porão criativo para revelar, passo a passo, como um conto nasce — ou melhor, como ele rasteja para fora das sombras, babando ideias e soluçando incoerências.
Tudo começou com um sussurro vindo de um edital de concurso. Um tema imposto, como um pacto assinado sem ler as letras miúdas. Aceitei. (Afinal, quem precisa de paz de espírito?)
A primeira sinopse brotou num surto no celular, digitada com os polegares trêmulos no meio da madrugada. Não corrigi os erros de digitação. Eles são relíquias do caos original. Deixei-os lá, como fósseis de um pensamento primitivo — e talvez bêbado.
Depois veio a fase da dissecação: abri o texto em tópicos, dei títulos provisórios (que mais pareciam nomes de feitiços falhados) e fui enxertando ou amputando ideias com a precisão de um cirurgião sonâmbulo.
Na penúltima etapa, escrevi tudo de uma vez, sem freio, sem pudor, sem o menor compromisso com a sanidade ou gramática. Um verdadeiro ritual de possessão literária.
O texto final — aquele que talvez faça algum sentido — ficará para outro post. Por enquanto, fiquem com as entranhas expostas do processo. E cuidado ao ler à noite. Algumas ideias ainda se mexem.
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Esboço